28/09/2026
A cirurgia de emergência envolve condições nas quais a avaliação especializada e uma possível intervenção não podem ser adiadas sem aumento relevante do risco ao paciente. Para o médico, reconhecer esse cenário é apenas uma parte da decisão: também é necessário avaliar a condição clínica atual, iniciar o cuidado compatível com os recursos disponíveis e comunicar o caso ao serviço receptor com informações suficientes para dar continuidade à assistência.
O encaminhamento para uma emergência cirúrgica não significa que o paciente necessariamente será operado. A indicação depende da avaliação da equipe receptora, da evolução clínica e dos exames disponíveis.
Este conteúdo reúne critérios gerais para apoiar o contato entre profissionais, a organização das informações clínicas e a transferência do paciente. Protocolos locais, fluxos de regulação e orientações do serviço receptor devem ser considerados em cada caso.
Uma cirurgia de emergência pode ser necessária quando há uma condição tempo-dependente com risco de morte, perda de função, lesão orgânica ou deterioração clínica caso o tratamento seja postergado. A prioridade não é definida apenas pelo diagnóstico: estabilidade hemodinâmica, extensão do comprometimento, velocidade de evolução, comorbidades e recursos necessários também influenciam a decisão.
Um consenso da World Society of Emergency Surgery (WSES) sobre a priorização em cirurgia aguda destaca que a gravidade da doença, a condição hemodinâmica e a presença de sepse ou choque estão entre os elementos considerados para definir a prioridade. O documento também ressalta que a classificação deve ser individualizada e adaptada ao contexto assistencial, em vez de aplicada de forma automática.
Na prática, o primeiro objetivo pode ser obter uma avaliação cirúrgica imediata, e não confirmar previamente que haverá uma operação. Casos como perfuração gastrointestinal, isquemia intestinal, hemorragia significativa, obstrução com sinais de complicação, peritonite, hérnia estrangulada e algumas complicações pós-operatórias podem demandar discussão precoce com o cirurgião.
Esses exemplos não constituem uma lista exaustiva. O caso também pode exigir avaliação de outras especialidades cirúrgicas.
Tanto as cirurgias de urgência quanto as de emergência requerem atenção em tempo oportuno. A diferença está principalmente no risco associado à espera e na prioridade da avaliação.
Cirurgia de emergência: envolve uma condição potencialmente crítica e tempo-dependente, na qual a demora pode aumentar de forma relevante o risco ao paciente.
Cirurgia de urgência: também precisa ser realizada em curto prazo, mas o intervalo seguro para avaliação, preparo e intervenção pode variar conforme o quadro clínico.
Cirurgia eletiva: é programada após indicação, avaliação de riscos e preparo adequado, sem a mesma necessidade de resposta imediata.
Não há um prazo único que se aplique a todas as condições. A classificação e o momento da intervenção devem considerar o quadro individual e os protocolos assistenciais correspondentes.
O contato com o serviço receptor deve ser considerado precocemente diante de suspeita de condição cirúrgica aguda, deterioração clínica ou necessidade de recursos não disponíveis na instituição de origem. Não é necessário aguardar o diagnóstico definitivo quando a evolução ou a gravidade tornam o caso tempo-dependente.
Entre os elementos que podem justificar avaliação cirúrgica imediata estão:
Instabilidade hemodinâmica ou sinais de hipoperfusão.
Sangramento ativo com repercussão clínica ou suspeita de hemorragia significativa.
Sinais de irritação peritoneal.
Suspeita de perfuração, isquemia ou obstrução complicada.
Infecção intra-abdominal com possível necessidade de controle de foco.
Disfunção orgânica ou piora clínica progressiva.
Complicação aguda após cirurgia ou procedimento invasivo.
Necessidade de centro cirúrgico, terapia intensiva, diagnóstico por imagem ou intervenção especializada indisponível na origem.
Um achado isolado nem sempre define a necessidade de cirurgia. A decisão deve integrar história, exame físico, sinais vitais, exames, resposta inicial e trajetória clínica.
Antes do contato, sempre que a situação permitir, é importante organizar uma síntese do caso. Ela deve informar não apenas o diagnóstico provável, mas também como o paciente se encontra naquele momento e como o quadro evoluiu. Devem ser considerados:
Condição clínica atual e tendência de melhora ou piora.
Sinais vitais e necessidade de suporte.
Medidas iniciais já realizadas e resposta observada.
Estabilidade e riscos relacionados ao transporte.
Recursos disponíveis na origem.
Motivo pelo qual o paciente necessita de avaliação ou estrutura adicional.
Em pacientes instáveis, o atendimento inicial e o contato com a referência devem ocorrer sem demora. Um exame não deve atrasar a discussão quando a espera puder aumentar o risco. A segurança do transporte deve ser avaliada em alinhamento com a regulação e o serviço receptor.
Uma comunicação estruturada reduz a perda de informações durante a transição do cuidado e permite que a equipe receptora compreenda a prioridade e se prepare para a chegada. O método SBAR (do inglês Situation, Background, Assessment, Recommendation), ou Situação, Contexto, Avaliação e Recomendação, pode ser utilizado quando fizer parte da rotina institucional.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) disponibiliza um formulário específico para referência aguda, destinado ao registro e à comunicação da condição e das necessidades do paciente entre a unidade de origem e o serviço receptor. A instituição também recomenda o uso conjunto de formulários e checklists para apoiar uma transferência estruturada.
Informe:
identificação segura do paciente
idade e sexo
instituição de origem
nome, CRM e contato direto do médico solicitante
motivo do encaminhamento e necessidade identificada
hipótese diagnóstica e prioridade clínica percebida
A passagem do caso deve incluir:
queixa principal e início dos sintomas
sequência dos acontecimentos e evolução temporal
achados relevantes do exame físico
sinais vitais atuais e suas tendências
comorbidades e cirurgias prévias relevantes
alergias
gestação, quando aplicável
condição funcional prévia ou fragilidade, quando pertinente
Medicamentos que influenciem o risco hemorrágico, anestésico ou cirúrgico merecem destaque. Para anticoagulantes e antiagregantes, informe o medicamento e, quando conhecida, a última administração. Registre também o horário da última ingestão oral, quando relevante.
Comunique os exames laboratoriais e de imagem já realizados, com data e horário. Sempre que possível, disponibilize:
resultados laboratoriais e sua evolução
laudos de ultrassonografia, tomografia, angiotomografia ou outros exames
imagens originais por meio seguro e compatível com o sistema receptor
resultados ainda pendentes
A ausência de tomografia não impede necessariamente o contato. A necessidade de imagem antes da transferência depende da estabilidade do paciente, da hipótese clínica, da disponibilidade do exame e do impacto que a espera pode ter na assistência.
Descreva de forma objetiva:
acessos e dispositivos em uso
suporte clínico oferecido
medicamentos administrados
antimicrobianos, fluidos ou hemocomponentes, quando aplicável
procedimentos já realizados
resposta clínica às medidas adotadas
intercorrências e mudanças desde a primeira avaliação
Se houver alteração relevante após o contato inicial, a equipe receptora deve ser atualizada antes da saída do paciente.
O documento de transferência deve permitir a continuidade do cuidado e integrar o prontuário na instituição receptora. De modo geral, devem acompanhar o paciente:
Resumo clínico com evolução e achados relevantes.
Sinais vitais e suporte atual.
Exames laboratoriais, laudos e imagens disponíveis.
Relação de medicamentos administrados.
Informação sobre alergias.
Dispositivos e acessos em uso.
Resultados pendentes.
Identificação, CRM e contato do médico encaminhador.
Orientações acordadas com o serviço receptor.
O compartilhamento deve ocorrer por canais institucionais seguros, limitado às informações necessárias à continuidade assistencial. Dados clínicos não devem ser enviados por contas pessoais ou meios não autorizados pela instituição.
A comunicação direta entre os profissionais da origem e do destino é uma etapa central do encaminhamento. O contato permite alinhar o estado clínico, a capacidade do serviço, a documentação necessária, o local de entrada e o suporte requerido durante o transporte. A OMS considera a transferência um período de maior risco assistencial e disponibiliza checklists para a preparação do paciente e para a comunicação entre as equipes envolvidas.
Antes da saída, a equipe deve reavaliar o paciente, registrar eventuais mudanças e confirmar se o transporte é compatível com sua condição. A solicitação de transferência não encerra a responsabilidade assistencial pela condução do paciente. Segundo a Resolução CFM nº 1.672/2003, a responsabilidade do médico transferente permanece até que o paciente seja efetivamente recebido pelo médico do serviço de destino.
No Brasil, a Resolução CFM nº 1.672/2003 do Conselho Federal de Medicina determina que pacientes graves ou de risco sejam removidos com equipe e ambulância compatíveis com sua condição. A norma também atribui a responsabilidade inicial da remoção ao médico transferente até que o paciente seja efetivamente recebido pelo médico do serviço de destino.
A discussão inicial não confirma, isoladamente, internação, indicação cirúrgica ou disponibilidade de recurso. Esses pontos precisam ser alinhados conforme o fluxo institucional.
No Hospital Mãe de Deus, a Emergência Cirúrgica está integrada à Emergência Geral e à estrutura hospitalar necessária para a avaliação e a continuidade do cuidado. Conforme as necessidades de cada caso, a jornada pode envolver diagnóstico por imagem, bloco cirúrgico, terapia intensiva e participação de diferentes especialidades.
Essa integração permite reavaliar a hipótese inicial e definir a conduta de acordo com os achados clínicos, os exames e a evolução.
Para discutir um caso com suspeita de emergência cirúrgica, reúna as principais informações clínicas e acesse o canal institucional do Hospital Mãe de Deus destinado aos médicos. Durante o contato, confirme o fluxo de encaminhamento, a documentação necessária, o meio seguro para envio dos exames, o suporte indicado para o transporte e o local de entrada do paciente.
Revisão Técnica:
Nome: Dr. Guilherme Arend Pesce
CRM: 25997
Cargo: Gestor de Especialidades Cirúrgicas do Hospital Mãe de Deus Revisão técnica:
Data de atualização: 28/09/2026
Não. O encaminhamento solicita avaliação especializada. A indicação de cirurgia depende do quadro clínico, dos exames, da evolução e da análise individual de riscos e benefícios.
Não necessariamente. A suspeita de uma condição cirúrgica tempo-dependente pode justificar contato precoce, especialmente diante de instabilidade ou deterioração clínica.
Sim, em situações selecionadas. A ausência de tomografia não deve impedir o contato precoce com o serviço receptor quando houver suspeita de condição cirúrgica tempo-dependente. A necessidade de realizar o exame antes da transferência depende da estabilidade clínica, da hipótese diagnóstica, da disponibilidade do exame e do impacto que a espera pode ter na assistência.
Sempre que possível, laudos e imagens originais devem ser compartilhados por um canal seguro e compatível com o serviço receptor.
O documento deve reunir história e evolução, exame físico relevante, sinais vitais, exames, medidas realizadas, medicamentos administrados, alergias, dispositivos, pendências e identificação do médico solicitante.
O médico deve usar o canal institucional destinado aos profissionais de saúde, apresentar o caso e seguir as orientações sobre fluxo, documentação, transporte e acesso à unidade.